Relatório do Amazônia 2030 mostra como economias ilícitas impulsionaram 18 mil homicídios na Amazônia
Relatório mostra que, desde 2018, facções ligadas ao tráfico respondem por 56% das mortes associadas a fatores de risco na região
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(Brasília-DF, 18/03/2026) Nesta quarta-feira, 18, foram divulgados dados de um relatório da iniciativa Amazônia 2030. Um dos destaques é que nas últimas duas décadas, a violência nos municípios pequenos da Amazônia Legal tomou um rumo diferente do restante do país.
Entre 1999 e 2023, a Amazônia Legal acumulou 18.755 homicídios a mais do que teria registrado se tivesse seguido a mesma trajetória dos demais municípios de pequeno porte do Brasil, revelando um descolamento persistente e preocupante em relação ao padrão nacional.
O dado é um dos principais resultados do relatório “Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira”, do projeto Amazônia 2030, que analisa a evolução dos homicídios e sua relação com diferentes atividades ilegais ao longo do tempo.
No início dos anos 2000, os municípios com menos de 100 mil habitantes da Amazônia e do restante do Brasil apresentaram taxas semelhantes, cerca de 10 homicídios por 100 mil habitantes. A partir de 2005, porém, as trajetórias passaram a divergir. Em 2023, os municípios pequenos da Amazônia registraram 30 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto os demais municípios pequenos do país ficaram em torno de 20 por 100 mil.
Ao estimar a contribuição de quatro fatores de risco: exploração ilegal de madeira; grilagem de terras; mineração ilegal de ouro; e presença de facções ligadas ao tráfico, o estudo calcula que 18.367 homicídios poderiam ter sido evitados entre 1999 e 2023 caso esses fatores não estivessem presentes.
Referência de violência
O estudo mostra que até meados dos anos 2000, os homicídios estavam mais associados à exploração ilegal de madeira. Nos anos seguintes, cresceram os conflitos ligados à grilagem de terras e à mineração ilegal de ouro.
A partir da segunda metade da década de 2010, sobretudo após 2018, ocorre uma inflexão clara: a presença de facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas passa a desempenhar papel central na dinâmica dos homicídios.
Até 2017, apenas 29% das mortes associadas a fatores de risco estavam relacionadas à presença de facções criminosas. Entre 2018 e 2023, esse percentual sobe para 56%, indicando a crescente centralidade do tráfico na explicação da violência na região.
No período mais recente, entre 2018 e 2023, a contribuição conjunta dos quatro fatores de risco explica cerca de 60% do excesso de homicídios, o equivalente a aproximadamente 5.500 mortes adicionais associadas a esses fatores.
O relatório também mostra que o acúmulo de riscos agrava o cenário. A partir de 2014, municípios expostos simultaneamente a três ou quatro fatores de risco registraram crescimentos mais intensos nas taxas de homicídio. Municípios com quatro fatores apresentaram, em média, aumento aproximado de 30 homicídios por 100 mil habitantes em relação aos municípios sem fatores de risco no período de referência.
Violência se interioriza e se torna mais complexa
Os dados indicam um processo de interiorização da violência. Municípios que, no início dos anos 2000, registravam níveis praticamente nulos de homicídios passaram a apresentar taxas elevadas nas décadas seguintes.
Com exceção do aumento quantitativo, houve uma transformação qualitativa. A violência, antes predominantemente ligada a disputas locais por recursos naturais, passou a se integrar a redes do crime organizado, com disputas por rotas e controle territorial ligadas ao tráfico.
O relatório conclui que o enfrentamento do problema exige estratégias mais integradas. Medidas tradicionais, como regularização fundiária e fiscalização ambiental, podem ser insuficientes diante da consolidação do crime organizado. A resposta, segundo o estudo, precisa articular governança territorial, políticas ambientais, segurança pública e controle de fronteiras em um contexto de dinâmica criminal mais complexa.
O que é Amazônia 2030
O Amazônia 2030 é uma iniciativa conjunta do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, em parceria com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, conduzida por pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de ações para a Amazônia. Seu objetivo é apontar caminhos para que a região dê um salto de desenvolvimento econômico e humano, mantendo a floresta em pé.
( da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)